O Sagrado ante o Espiritismo

Sérgio Biagi Gregório

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Conceito. 3. Histórico. 4. Aspectos Sagrados da Vida. 5. Revelação do Sagrado. 6. Racionalização do Sagrado. 7. O Espiritismo. 8. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste ensaio é estudar o sentimento de adoração, inato no ser humano, porém influenciado pelas hierofanias das diversas religiões. Para atingir tal objetivo, esquematizamos o seguinte roteiro: o conceito de sagrado, adoração do sagrado no tempo, aspectos sagrados da vida, revelação do sagrado, racionalização do sagrado e o Espiritismo.

2. CONCEITO

O conceito de sagrado deve ser visto, levando-se em conta a Lei de Adoração. A palavra adorar vem do latim ad e orare que significa orar para alguém. É render homenagem através de palavras, gestos, atitudes e cultos. Subentende um sentimento de admiração.

Convém lembrar que o ser humano toda a vez que não consegue resolver uma dificuldade por meios técnicos, lança mão dos meios mágicos. O mito, por exemplo, conta uma história sagrada, um acontecimento primordial que teve origem no começo do tempo - ab initio - revelar um mistério. Somente os deuses podem revelar esse mistério. Quando contada pelos reveladores, torna-se uma verdade apodítica, ou seja, demonstrável, evidente.

Sagrado - Manifestação de uma realidade de ordem inteiramente diferente da das realidades "naturais". Tem como contrapartida a noção de profano. (Eliade, 1957, p. 24)

Hierofania - É o ato da manifestação do sagrado. A história das religiões tem um número considerável de hierofanias, ou seja, todas as manifestações das realidades religiosas. É isso o que explica o sagrado manifestando-se em pedras, animais, árvores etc. (Eliade, 1957, p. 25)

Espaço Sagrado – Para o homem religioso, o espaço não é homogêneo: o espaço apresenta roturas, quebras; há porções de espaço qualitativamente diferentes das outras. "Não te aproximes daqui, disse o Senhor a Moisés, descalça as sandálias; porque o lugar onde te encontras é uma terra sagrada" (Êxodo, III, 5). (Eliade, 1957, p. 35)

Deus Otiosus – O fenômeno do "afastamento" do Deus supremo é já atestado aos níveis arcaicos de cultura. Entre os australianos Kulin, o Ser Supremo Bundjil criou o Universo, os animais, as árvores e o próprio homem; mas, depois de ter investido em seu filho o poder sobre a Terra, e a sua filha o de providenciar no Céu, Bundjil retirou-se do mundo. Na África, os Yorubas da Costa dos Escravos acreditam num Deus do Céu, denominado Olorum (literalmente proprietário do céu) que, após haver iniciado a criação do mundo, incumbiu um Deus inferior, Obatala, de conclui-lo e governá-lo. Quanto a Olorum, afastou-se, sendo invocado como último recurso. (Eliade, 1957, p. 132-134)

3. HISTÓRICO

O clã totêmico serve de origem para muitos aspectos de nossa vida. Não são poucos os sociólogos e historiadores que consideram o Totemismo a mais primitiva das religiões. As idéias fundamentais do Totemismo são as de totem, de mana e de tabu.

Totem – aplica-se o termo totem à espécie de seres ou de coisas que todos os membros de um clã julgam sagrados. Podem ser animais (lobo, canguru, búfalo), vegetais (a árvore-do-chá) e, mais raramente coisas (a chuva, o mar, determinados astros).

Mana e orenda – designa uma força impessoal, ao mesmo tempo material e espiritual, difundida por todas as partes, comum aos símbolos sagrados, aos seres e aos objetos sagrados, a todos os seres, a todas as coisas.

Tabu - de origem polinésica, designa a instituição em virtude da qual determinadas coisas, certos atos são proibidos. (Challaye, 1981, p.17-20)

A religião, nesse contexto, é a separação do profano e do sagrado. Assim, segundo Émile Durkhein (1858-1917) em sua obra de capital importância, Les Formes Élémentaires de la Vie Religieuse, seria "um sistema solidário de crenças e de práticas relativas a coisas sagradas, isto é, separadas, proibidas, crenças e práticas que unem numa mesma comunidade moral, chamada Igreja, todos os que a ele aderem". (Challaye, 1981, p. 25)

J. Herculano Pires em O Espírito e o Tempo retrata este histórico em termos de horizontes: tribal (mediunismo primitivo), agrícola (animismo), civilizado (mediunismo oracular), profético (mediunismo bíblico) e espiritual (mediunidade positiva).

4. ASPECTOS SAGRADOS DA VIDA

Além da religião, o direito, a ética, a estética, a política, o casamento, a família, o sexo, a morte, a arte, a arquitetura e muitos outros aspectos da vida são igualmente envolvidos pelo sagrado. Situemos alguns deles.

Direito – A arquitetura dos tribunais, a toga do juiz, o ritual das sessões dos tribunais, mesmo o uso de símbolos religiosos para o juramento, por exemplo, apontam certos aspectos da instituição do direito que têm pelo menos certo sabor de sagrado. Nos Estados Unidos, em qualquer circunstância, um juiz da Suprema Corte tem, aos olhos do homem médio, um status muitíssimo mais alto que o de um sociólogo, e um cientista social está muito mais sujeito a olhar como um servo para o tribunal do que a vê-lo como uma ameaça.

Religião - É um aspecto do sistema social que poderia ser descrito como especializado no sagrado. Embora o impulso e a experiência religiosos sejam algo que pode ser praticado em caráter privado, seu maior impacto se dá sob a forma de organizações eclesiásticas. A igreja é um suplemento importante da família na educação das crianças, no estabelecimento de normas sociais, na criação de ideais e heróis e na criação de uma comunidade dentro da qual o indivíduo pode sentir-se em casa.

Ética – Até hoje o sistema ético tem sido quase universalmente parte da cultura folk, com contribuição considerável da cultura literária na elaboração de documentos sagrados como os Dez Mandamentos, o Sermão da Montanha ou mesmo os Gettysburg Address e também na elaboração de uma grande quantidade de aforismos, provérbios, poemas bem conhecidos, hinos etc., que formam uma espécie de banco da memória lingüistica de um sistema ético. O princípio folk do "quem bem ama, bem castiga", que conduziu à perpetuação de gerações e gerações de crianças infelizes, agora finalmente está cedendo lugar, a um padrão mais literário e científico. (Boulding, 1974, cap. 4)

5. REVELAÇÃO DO SAGRADO

Revelar, do latim revelare, cuja raiz velum, véu, significa literalmente sair de sob o véu — e, figuradamente, descobrir, dar a conhecer uma coisa secreta ou desconhecida. Em sua acepção vulgar mais genérica, essa palavra se emprega a respeito de qualquer coisa ignota que é divulgada, de qualquer idéia nova que nos põe ao corrente do que não sabíamos.

No sentido especial da fé religiosa, a revelação diz-se mais particularmente das coisas espirituais que o homem não pode descobrir por meio da inteligência, nem com o auxílio dos sentidos e cujo conhecimento lhe dão Deus ou seus mensageiros, quer por meio da palavra direta, quer pela inspiração. Neste caso, a revelação é sempre feita a homens predispostos, designados sob o nome de profetas ou messias, isto é, enviados ou missionários, incumbidos de transmiti-la aos homens.

Todas as religiões tiveram seus reveladores e estes, embora longe estivessem de conhecer todas as verdades, tinham uma razão de ser providencial, porque eram apropriados ao tempo e ao meio em que viviam, ao caráter particular dos povos a quem falavam e aos quais eram relativamente superiores. Buda, Maomé, Confúcio são alguns dos inúmeros exemplos.

Por sua natureza, a revelação espírita tem duplo caráter: participa ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação científica. Quer dizer, o que caracteriza a revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem. (Kardec, 1975, p.14-20)

6. RACIONALIZAÇÃO DO SAGRADO

No Catolicismo, Deus está distante. A comunicação é feita através dos santos — os trabalhadores — que operam milagres e ajudam em coisas pessoais, tais como casamento e vida familiar; na Umbanda, o Olorum, Deus Supremo, está distante. Os Orixás, mais próximos, são os verdadeiros trabalhadores. O relacionamento com o sagrado é pessoal. No Brasil, o Olorum é esquecido e, pouco a pouco, os orixás passaram, nos cultos afro-brasileiros, a ser identificados com os santos católicos. Assim sendo, Oxalá identifica-se com Jesus Cristo, Xangô com São João Batista e São Jerônimo, Iansã com Santa Bárbara, Ogum com São Jorge etc.; no Espiritismo, a postura deve ser outra, pois quando Allan Kardec codificou a Doutrina dos Espíritos, fê-lo com o intuito de criar uma nova ordem no relacionamento com as coisas sagradas. Não mais peditórios para resolução de problemas pessoais, mas a absorção de conhecimentos superiores, a fim de que possamos nos tornar herdeiros da felicidade celeste.

7. O ESPIRITISMO

O Espiritismo funciona à semelhança das ciências naturais, utilizando a observação, a formulação de hipóteses, a experiência e as conclusões. É uma doutrina científica filosófica, que se utiliza do método teórico-experimental, como o faz a maioria da ciências.

Embora deva assim ser estudado e praticado, são muitos os disparates que ainda temos que nos corrigir. Observe que muitas vezes transferimos as imagens (Santos e Guias de outros credos) para as nossas práticas. Muitos de nós hierarquizam os mentores espirituais, como se faz na Igreja e na Umbanda. Alguns sacralizam o espaço, como a câmara de passes, impedindo, inclusive, de se trocar a pintura.

O Espiritismo não é questão de forma, mas de fundo. Separemos, assim, a Doutrina Espírita da dos seus propagadores. Nesse sentido, desconfiar da autoridade (inclusive das federações), eliminar mantras, hinos e preces cantadas, vestir-se naturalmente e sem rituais, é um bom exercício.

8. CONCLUSÃO

Precisamos ir ao Espiritismo isentos de idéias preconcebidas. Paulatinamente, sem correrias, buscar a identificação com os princípios básicos codificados por Allan Kardec. Aplicar o bom senso e a razão em tudo que empreendermos no campo do sagrado. À medida que o conhecimento técnico aumenta, a adoração mágica diminui. Com isso vamos aumentando a nossa percepção do mundo espiritual e melhorando a nossa conduta junto aos nossos semelhantes.

9. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

BOULDING, K. E. O Impacto das Ciências Sociais. Rio de Janeiro, Zahar, 1974.
CHALLAYE, F. As Grandes Religiões. São Paulo, IBRASA, 1981.
ELIADE, M. O Sagrado e o Profano: A Essência das Religiões. Lisboa, Livros do Brasil, 1957?
KARDEC, A. A Gênese - Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. 17. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1976.

São Paulo, março de 1997  

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